Plano de saúde negou Stelara (Ustequinumabe)? Entenda como agir

A Doença de Crohn é uma condição inflamatória crônica e progressiva do sistema digestivo que, nas formas moderada a grave, exige tratamentos de alta eficácia. Quando as terapias convencionais falham ou se tornam intoleráveis, o Ustequinumabe (Stelara) costuma ser a melhor opção disponível. Trata-se de um anticorpo monoclonal aprovado pela ANVISA, com décadas de estudos clínicos. Mesmo assim, os planos de saúde negam a cobertura alegando restrições administrativas. Os tribunais brasileiros vêm afastando esse tipo de negativa de forma sistemática.

O que é o Ustequinumabe e para que é indicado

O Ustequinumabe (Stelara) é um anticorpo monoclonal que bloqueia as interleucinas IL-12 e IL-23, proteínas associadas à inflamação crônica. Ele é indicado para o tratamento de psoríase em placas moderada a grave, artrite psoriásica, retocolite ulcerativa e Doença de Crohn ativa de moderada a grave, nos casos de resposta inadequada, perda de resposta ou intolerância à terapia convencional ou aos agentes anti-TNF-alfa.

O medicamento tem registro sanitário na ANVISA desde 2009 para psoríase e, com o tempo, obteve aprovação para as demais indicações. O custo é alto e pode superar R$ 30.000 por ciclo de indução, o que torna a cobertura pelo plano de saúde essencial para a maioria dos pacientes.

A inclusão no rol da ANS em 2024 e o que isso significa

O Ustequinumabe foi incluído no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da ANS em 2024. Na prática, a inclusão do Stelara no rol significa que os planos de saúde são obrigados a fornecê-lo nas indicações previstas nas Diretrizes de Utilização (DUT) publicadas pela agência.

O problema que persiste é a negativa quando o uso proposto pelo médico vai além ou difere dos critérios exatos das DUT. Isso acontece, por exemplo, quando o paciente não preenche formalmente um critério de elegibilidade previsto nas diretrizes, mas o gastroenterologista ou o dermatologista fundamenta a indicação com base no histórico clínico individual. Nessas situações, os tribunais mantêm o mesmo entendimento: quem define o tratamento mais adequado é o médico, não a operadora.

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Por que a negativa baseada nas DUT é abusiva

As Diretrizes de Utilização estabelecem critérios mínimos para a cobertura. Elas não são uma lista taxativa que exclui todas as demais situações clínicas. Quando o médico indica o Ustequinumabe com prescrição fundamentada, seja pelo esgotamento de outras linhas terapêuticas, por contraindicação a tratamentos anteriores ou por falha terapêutica comprovada, e o plano nega com base em critério puramente burocrático das DUT, a operadora toma uma decisão que é de competência exclusiva do profissional de saúde.

O TJSP manteve a condenação de um plano de saúde a fornecer o Stelara para paciente com Doença de Crohn ativa grave. O tribunal afastou a alegação de que o medicamento não preenchia os critérios das DUT e aplicou a Súmula 102: é abusiva a negativa de cobertura quando há indicação médica expressa, ainda que o tratamento não esteja previsto no rol ou nas DUT.

O STJ, no REsp 1.754.848-RJ, decidiu que o fornecimento do Stelara para Doença de Crohn é devido quando comprovadas a necessidade e a eficácia, mesmo à época em que o medicamento não constava no rol da ANS. Com a inclusão no rol em 2024, a obrigação ficou ainda mais sólida.

O que o STJ diz sobre medicamentos biológicos e falha terapêutica

O Superior Tribunal de Justiça tem reconhecido a cobertura de medicamentos biológicos como o Ustequinumabe quando ficam demonstradas a falha ou a intolerância às terapias convencionais e a ausência de substituto terapêutico equivalente. Os REsp 1.726.563/SP e REsp 1.712.163/SP (Tema 990) são a base dessa proteção: registrado na ANVISA e prescrito pelo médico, o fármaco não pode ser recusado.

Além disso, os EREsp 1.886.929/SP e 1.889.704/SP (2ª Seção/STJ ) abriram a possibilidade de cobertura de tratamentos fora do rol quando não há substituto terapêutico disponível na lista, existe comprovação de eficácia pela medicina baseada em evidências e há recomendação de órgãos técnicos de renome. O Ustequinumabe atende a esses critérios.

O que fazer se o plano negar o Stelara

Peça ao especialista (gastroenterologista ou dermatologista) um relatório médico detalhado que descreva o histórico terapêutico, as linhas de tratamento já utilizadas e a necessidade específica do Ustequinumabe. Em seguida, exija da operadora a negativa por escrito, com o motivo declarado.

Com esses documentos, registre uma reclamação na ANS. Esse passo ganhou ainda mais força agora que o medicamento está incluído no rol. Se a doença estiver em fase ativa e causar impacto significativo na qualidade de vida, avalie com um especialista o pedido de tutela de urgência na Justiça.

Leia também: Sobre negativa de medicamento pelo plano de saúde e sobre o rol da ANS e coberturas obrigatórias.

FAQ: perguntas frequentes sobre Stelara (Ustequinumabe)

Para que serve o Stelara (Ustequinumabe) e quem pode usar?

O Ustequinumabe (Stelara) é um anticorpo monoclonal, um tipo de medicamento biológico que bloqueia as proteínas inflamatórias IL-12 e IL-23. Ele é indicado para psoríase em placas moderada a grave, artrite psoriásica, retocolite ulcerativa e Doença de Crohn ativa de moderada a grave, especialmente quando outros tratamentos falharam. É uma opção terapêutica para pacientes que não responderam ou desenvolveram intolerância a medicamentos convencionais ou a outros biológicos.

O Stelara está no rol da ANS?

Sim, desde 2024. O Ustequinumabe foi incluído no Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde da ANS em 2024. Com isso, os planos de saúde são obrigados a cobri-lo para as indicações previstas nas Diretrizes de Utilização publicadas pela agência. Antes dessa inclusão, a cobertura já era garantida pela jurisprudência. Agora ela é também uma obrigação expressa do rol regulatório.

Por que o plano ainda nega o Stelara mesmo ele estando no rol da ANS?

As operadoras costumam negar invocando os critérios das DUT. Elas exigem, por exemplo, que o paciente tenha falhado em tratamentos específicos antes de ter direito ao Stelara, ou aplicam outros critérios burocráticos que o paciente não preenche formalmente apesar de ter indicação clínica clara. A jurisprudência reconhece que as DUT estabelecem um piso mínimo de cobertura, não um teto. Se o médico indica o Ustequinumabe com justificativa clínica fundamentada, a operadora não pode negar apenas com base em critério administrativo.

Quanto custa o Stelara e existe alguma assistência financeira?

O custo do Stelara varia conforme a dose e a apresentação, mas pode ultrapassar R$ 30.000 por ciclo de indução (a dose de ataque). A Johnson & Johnson, fabricante do Stelara, mantém o Programa Minha Saúde de Assistência ao Paciente, que pode oferecer suporte em casos específicos. Vale consultar o laboratório diretamente. Para quem tem plano de saúde, a cobertura pela operadora é o principal caminho, e a inclusão no rol da ANS em 2024 reforça esse direito.

O plano pode exigir que eu tente outros tratamentos antes do Stelara?

Em geral, sim. As DUT da ANS costumam estabelecer que o Ustequinumabe é indicado para pacientes que não responderam ou não toleraram tratamentos de primeira linha, como imunossupressores convencionais ou outros biológicos (anti-TNF). Mas se o médico demonstrar que esses tratamentos já foram tentados sem sucesso, ou que existe contraindicação específica, a negativa baseada em “ainda não tentou a primeira linha” não se sustenta. O relatório médico documentando esse histórico é essencial.

O Stelara é um imunossupressor?

Sim. O Ustequinumabe (Stelara) é classificado como um imunossupressor biológico. Ele modula (reduz) a resposta inflamatória excessiva do sistema imunológico ao bloquear as citocinas IL-12 e IL-23, proteínas que, em excesso, causam a inflamação crônica das doenças para as quais o Stelara é indicado. Por ser imunossupressor, o paciente em uso do medicamento tem risco um pouco maior de infecções, e o acompanhamento médico regular é fundamental. Isso não impede o tratamento, mas exige monitoramento adequado.

Quais são os efeitos colaterais mais comuns do Stelara (Ustequinumabe)?

As reações adversas mais comuns do Ustequinumabe são as infecções das vias aéreas superiores (nariz e garganta), a sinusite e a nasofaringite. A dor de cabeça também aparece com frequência no início do tratamento, assim como a fadiga. No local da injeção subcutânea podem surgir vermelhidão, dor ou inchaço, em geral leves e passageiros.

Infecções mais graves são menos frequentes, mas possíveis, incluindo infecções fúngicas e a reativação de tuberculose latente. Por esse motivo, o teste tuberculínico é obrigatório antes de iniciar o tratamento. Efeitos graves são raros, mas o médico deve ser informado imediatamente sobre qualquer sinal de infecção, febre persistente ou reação alérgica.

Quanto tempo demora para o Stelara fazer efeito?

O tempo de resposta varia conforme a condição tratada e o paciente. Na psoríase, a melhora visível pode aparecer a partir da quarta semana após a dose de indução, com resposta mais consistente entre a 12ª e a 28ª semana. Na Doença de Crohn e na retocolite ulcerativa, a resposta clínica pode ser avaliada a partir da oitava semana, após a dose de indução intravenosa, com a manutenção da resposta acompanhada ao longo dos primeiros seis meses.

O tratamento com Stelara é de longo prazo. Interromper sem orientação médica pode causar recidiva. A avaliação da resposta é feita pelo médico com base em critérios clínicos e, quando indicado, endoscópicos.

Qual é o substituto do Stelara? Existe similar ou genérico?

O Ustequinumabe não tem versão genérica disponível no Brasil. Existem biossimilares em desenvolvimento e aprovados em outros países, medicamentos com o mesmo mecanismo de ação e eficácia equivalente, produzidos por outros fabricantes. No Brasil, porém, a ANVISA ainda não registrou biossimilar do Ustequinumabe até a data deste artigo. O Stelara (Johnson & Johnson) segue como a única opção disponível.

Para condições como Doença de Crohn e psoríase, outras classes de biológicos podem servir de alternativa terapêutica, como os anti-TNF (adalimumabe, infliximabe) e outros anti-IL (secuquinumabe, risanquizumabe). A escolha do substituto, porém, é exclusivamente do médico, com base no perfil clínico e no histórico do paciente.

Qual é o outro nome do Stelara? E o nome genérico?

O nome comercial é Stelara. O nome genérico (DCI, Denominação Comum Internacional) é ustequinumabe em português, ou ustekinumab em inglês. O fabricante é a Janssen Cilag (Johnson & Johnson). Quando o médico prescreve “ustekinumabe” ou “Stelara”, está se referindo ao mesmo medicamento. O plano de saúde não pode negar a cobertura alegando que a prescrição usa o nome genérico em vez do comercial, ou vice-versa.

Quanto custa a injeção de Ustequinumabe (Stelara)?

O custo do Stelara depende da apresentação. A dose de indução para Doença de Crohn é feita por infusão intravenosa em ambiente hospitalar, com a dose calculada pelo peso do paciente, e pode ultrapassar 30 mil reais por infusão. As doses de manutenção são aplicações subcutâneas (seringa preenchida de 90 mg), a cada 8 ou 12 semanas, com custo que varia entre 15 mil e 25 mil reais por dose.

Para a maioria dos pacientes, pagar esses valores sem a cobertura do plano de saúde é inviável. Por isso a inclusão do Ustequinumabe no rol da ANS em 2024 e a jurisprudência que garante a cobertura com indicação médica são tão importantes.

Quais são as reações adversas graves do Stelara que exigem atenção imediata?

Embora raras, algumas reações adversas graves associadas ao Ustequinumabe exigem atenção médica imediata. As infecções graves, como pneumonia, celulite e sepse, estão entre elas, e qualquer febre alta persistente deve ser comunicada ao médico. A reativação de tuberculose também é uma preocupação, e é por isso que a triagem de TB latente é obrigatória antes do início do tratamento.

Reações alérgicas graves (anafilaxia) são raras, mas podem ocorrer logo após a administração. Há ainda a síndrome de encefalopatia posterior reversível (PRES), extremamente rara, mas descrita na literatura, com sintomas como dor de cabeça intensa, convulsão e alteração visual. Antes de iniciar o Stelara, o paciente deve informar ao médico todos os medicamentos em uso e o histórico de infecções.

Escrito por

Gustavo Moizes Carvalho

Advogado · OAB/SP 411.372 · Direito da Saúde

Atuação em erro médico e negativas de planos de saúde — medicamentos, exames e procedimentos. Atendimento online em todo o Brasil e presencial em São Bernardo do Campo/SP.

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